segunda-feira, 29 de junho de 2009

Perigosa e desafiadora

Sempre havia achado ela perigosa e desafiadora, mas agora a situação era diferente. Nada daquele conforto do cotidiano, existente até então. De perto, intimamente, ela era muito mais ameaçadora. Mas, inesperadamente, o que o dominou, diante desta inusitada proximidade, foi o desafio. O único desejo que sentia era o de adentrar àquele novo universo, íntimo e particular.
Sem resquícios de medo ou ansiedade, começou a explorar aquelas sensações, novas a cada instante. Entregou-se de tal forma que, no lugar da insegurança, a pré-potência fazia-se valer a cada gesto.
Nunca foi tão fácil ter tudo o que queria. E a segurança o fez esquecer de preservar o universo que havia desbravado. Assim, como se submetido a alguma lei da física, o universo se dissolveu por completo, de maneira constante e natural.
O conquistador, quando quis o refúgio de seu universo, foi surpreendido pelo vazio. Nada de sensações, momentos, espaço ou tempo. Tudo o que lhe restou foi a solidão, onde o medo e a insegurança o dominavam. E assim, mais uma vez, diante do espelho, definiu a realidade: “perigosa e desafiadora”. A única diferença desta para as outras milhares de vezes em que repetira essa espécie de mantra era o fato de ter a certeza de que era incapaz de superar o desafio.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Silenciosas tormentas

Após a tempestade, o desespero. A solidão nunca havia sido tão dolorosa. A cada movimento, o vazio o apunhalava profundamente. Sentia-se vigiado. Não descobriu, mas era vigia de si mesmo, reprovando cada atitude. Talvez pela sequência de atitudes infundadas dos últimos dias. A verdade é que já não suportava as consequências de seu individualismo.
Jamais imaginou o quanto seria difícil viver naquela casa sem as constantes cobranças e carícias, raras, porém eminentes. E era essa eminência que o fazia sentir o direito de sobrepor o seu ego ao dela. Mas hoje, castigado pelo silêncio, não tinha segurança para decidir o que fazer naquela imensidão que se tornara sua cama. No limite do dia, atormentado por seus flagelos, sucumbiu. Voltou-se para si e mergulhou no vácuo que habitava seus pensamentos. Jamais esquecerá desta libertação. O que nunca soube é que já não teria oportunidades para lembrar-se daquele dia; nem de sua vida.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Honrando as dívidas

A sensação de cacos de vidro quebrando sob seus pés o deixava confiante, dando-lhe um sincero prazer. A cada passo sua convicção aumentava, inflando seu peito. Não lembrava em nada aquele jovem reprimido, que sempre foi.
Destrinchava cada mágoa e humilhação sofrida. Mas agora a vingança era certa e seria executada calma e vagarosamente, como sempre sofreu.
No mesmo bar de sempre. Entrou e sentou ao lado dos que sempre o diminuíram. Pediu bebidas para todos. Tomou a sua de maneira espantosamente rápida e indiferente; nem sequer limpou o canto da barba, por onde a bebida havia escorrido.
Sacou suas mágoas da bolsa e, num acertar de contas, distribuiu-as sobre os peitos de seus companheiros. O leve, breve e progressivo desespero dos presentes foi consumido totalmente. Logo todos estavam serenamente silenciosos – compartilhando o momento. Seu último rancor usou consigo, acertando as contas com sua breve e limitada existência.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Desconforto alheio

Rápido como um susto e profundo como um suspiro. Assim foi o encontro dos dois, após dois anos de desencontros. O que dominava os dois era o desconforto de serem obrigados a se olharem nos olhos, pois se perceberam já próximos. Ele com as mãos nos bolsos da calça e ela prendendo os cabelos na nuca, com um prendedor entre os dentes. Mais tarde ela perceberia que apertara tanto os dentes nesse momento que o plástico do prendedor ficou mastigado. E ele não soube definir no momento, mas as mãos suadas não eram devido ao calor.
Desde o momento em que se perceberam, vindo de encontro, o tempo para chegarem a si não foi suficiente para uma respiração. O silêncio foi total, velando o desconforto de cada um. Até que, um diante do outro, sem diminuir o ritmo das passadas, ele olhou ela (de canto) e resmungou um “opa!”, e ela, também de soslaio: “bem, e você?”. E seguiram, sem olhar pra trás, por menos natural que isso fosse pra cada um.
Ambos passaram o resto do dia procurando lembranças. Do tempo em que acreditavam que dariam certo. Desmotivados pela realidade, seguiram seus rumos, ainda naquele silêncio que dificultava suas respirações.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Doce prazer

Sol em fim de tarde em época de inverno. Ta aí uma coisa que é mais bonita do que confortável. Você ali, quase perdendo nariz, dedos e orelhas para o vento gelado e nem consegue abrir os olhos de tão desconfortável claridade. Qual é o prazer em perder todos os sentidos de uma vez só?
Eu não me engano mais.

Sobre o quê?

Um sonho sempre me acompanhou: a invisibilidade. Mas confesso que tenho medo da indiferença e do esquecimento. Por isso, acho, nunca tentei realizar esse sonho. Mas sei que um dia esse esquecimento se encarregará da minha existência. E o que será dos meus sonhos? Que será dos meus desejos? Quem se importa? Já não serei algo a se preocuparem.
Por isso nunca busquei a visibilidade. Talvez pra não inventar o que esquecerem. Andar só, engolido pela multidão, me coloca diante desse futuro em que não farei diferença a qualquer dos existentes. E é por isso que aproveito todas as sensações que me cabem. Amo, exagero, extrapolo, praguejo e me arrependo. Tudo dentro do jargão de 2009: sem limites. E também faço proveito de sentimentos condenáveis. Pois a sua fama faz a minha inveja.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O tédio das horas

Suas obrigações sempre estiveram fora de seu controle. Cumprir horários era uma das atividades mais penosas para si. Amigos, companheiros, chefes... Todas as pessoas que mantinham algum tipo de relação com ele já haviam se estressado, ao menos uma vez, com essa displicência.
Até que decidiu mudar. Comprou relógio e agenda. Programava-se sempre para antes do horário combinado, e começou a atingir seus objetivos. Quando não chegava pontualmente, era um pouco antes. E começou a fazer seu papel antagônico: passou a esperar pelos outros. Deliciou-se com esse novo ritmo, em que podia sentar e ficar sem fazer nada até que seu compromisso chegasse.
Leu livros, ouviu música, conheceu pessoas, enfim: tudo o que se pode fazer quando se tem tempo pra gastar. Até que o tal ócio começou a irritá-lo. Não tinha idéia de quanto sentir o tempo passar era irritante. Por isso, jogou fora sua agenda e o relógio. Pensou melhor e voltou pegar o relógio. Podia valer algum dinheiro entre seus amigos... E, sozinho, resmungou: Pontualidade é para os entediados.

Essências atemporais

O que mais temia aconteceu: ela o viu ali, cabisbaixo. Sentindo-se exposto, escorreu de seu próprio corpo e ficou ali, escondido embaixo da cadeira. Ela vinha se aproximando com aquele sorriso sarcástico e desmoralizador que sempre o fazia sentir diminuído. A vontade era de se esconder em algum lugar do passado. Ou no futuro, onde não corresse mais o perigo de se deparar com uma ocasião tão torturante quanto esta.
Mas, em um lapso de valentia, voltou ao seu corpo, apático e vazio, encheu os pulmões e ia enfrentar seus medos. Contou até três para disparar toda sua mágoa de uma só vez. E ela, superior como sempre, ignorou sua presença, passando reto. Deixando-o mais uma vez com seu desabafo preso em si. E assim ficou, com cada vez mais mágoas que se somavam e alteravam sua essência.
Fechou-se em si, ignorando a preocupação dos seus. E logo, sua pouca estima não passava de lembrança, talvez escondida onde ele um dia quis estar. Sentia-se incapaz de corresponder aos sentimentos alheios. E assim ficou; isolando-se enquanto podia, até o dia em que decidiu não acompanhar o fluxo do tempo.
Ninguém jamais tomou conhecimento de tal decisão.