domingo, 30 de novembro de 2008

In-segurança

Inconformado com a realidade, abriu a janela em busca de algo para contestar. Encontrou apenas o céu irritantemente azul. Não entendia o porquê de as pessoas valorizarem tanto algo tão vazio. Dias nublados são muito mais interessantes, com muito mais detalhes. Logo seus resmungos foram interrompidos pela exuberante vizinha que chegava ao portão do prédio. Incomodado pelo domínio que ela exerceria sobre ele, caso seus olhos se cruzassem, tentou se esconder atrás da cortina. Tarde demais. Inocente ela o paralisou com seu olhar felino. Ali, desprotegido de sua arrogância, o jovem escritor não tinha o que criticar a não ser sua própria insegurança. Como podia ela o dominar com um olhar? Gaguejou um “oi” e logo saiu da janela, como se fosse realmente sair naquele instante. Jogou-se no sofá e se imaginou ao lado dela, protagonizando seu próximo conto. Mas logo desistiu da idéia. Ela era muito egocêntrica...

Uma certeza

Sentado ali, no meio fio, não tinha noção de quanto tempo se passara. A visão era embaralhada, fora de foco, e a musa (ou não) ainda lá, parada. Imaginou-se indo até ela, tentando um primeiro contato: “e aí, vai pegar qual ônibus?”. Não. Não era uma boa idéia. Com certeza não acertaria caminhar sobre a reta que os unia. Em meio a essa indecisão, foi dominado por uma tremenda ânsia. Vomitou, praguejou e dormiu ali, sem a musa, sem conforto e com uma certeza: tubão é foda!

De (s) amor

Em meio à escuridão, o que importava era continuar aquela conversa e absorver os deliciosos sorrisos que conseguia arrancar dela. As ondas vinham quase aos seus pés, e a brisa começava a gelar seus corpos. Apesar do conforto do momento, ele só pensava em uma coisa: como traria à tona suas verdadeiras intenções? Trocaria toda aquela saborosa conversa por um único beijo dela. Mas tinha a certeza de que ela não pensava o mesmo. Ou pensava? Decidiu pelo menos arriscado, deu espaço à ingênua conversa a dois, que sobreviveu até o nascer do Sol, frente às ondas. Dominados pelo cansaço, foram embora. Separaram-se no meio do caminho. Ele se martirizando por ter, mais uma noite, sufocado sua paixão pelo simples medo de se expor. Ela tinha a certeza de que as dúvidas, existentes até a noite anterior, não faziam sentido. Triste, mas já conformada, concluiu que não era desejada. Superaram o amor que não teve espaço para nascer e prosseguiram suas vidas infelizes, sem nunca terem sido amados.