sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Insônia indusida

Em meio às companhias virtuais, resistia em admitir que o sono o dominara. Todas aquelas fotos pareciam mais felizes do que ele. Festas, shows e amores competiam com sua leve embriaguez, misturada ao sono atrasado. Mas, para ele, avançar na madrugada, sozinho, era um sinal de auto-suficiência. Sempre existiu a possibilidade de ser uma carência camuflada. Mas isso, ele nunca soube definir.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Não-ciclista

O comportamento – e corpo - atlético já o abandonara há tempos. A boemia, com suas bebidas e mulheres, o conquistou. Mas um exercício ele nunca deixou de praticar: andar de bicicleta. Não o ciclismo! Porque, para ele, a palavra ciclismo traz toda aquela idéia de esporte e, consequentemente, de disciplina. Agora, enamorado pela vida desregrada, com frequentes noites mal dormidas, sempre que tem um tempo livre e um dia sem resquícios da noite anterior, pega sua velha bicicleta (dos tempos atléticos) e sai pelas ruas. Costurando pelo trânsito, sente-se com direitos de pedestres e motoristas. Ora circula pelas calçadas, ora pelas ruas, chegando a ultrapassar – sempre pela esquerda - os carros mais lentos. Seus pensamentos vão longe, mas nunca deixa de pensar no melhor caminho, com o menor número de subidas. Essa liberdade sempre lhe deu prazer. Sem contar que se sente só, desgarrado de tudo. Por isso nunca gostou de pedalar acompanhado. Mas isso ele nunca contou a ninguém...

Amor diluído

Abraçada pela imensidão do mar, sentia-se protegida. Já não se sentia deprimida. A cada onda que quebrava, via os cacos de seu amor indo embora. Há um mês atrás, estaria aflita, vendo o mais sublime de seus sentimentos se esfacelando assim. Agora já não faz mais sentido. A traição sofrida não foi o suficiente para sequer diminuir a força de seu coração em desejá-lo. Agora ali, tudo se diluía na água. Não se sabia mais o que era sentimento ou simples espuma da arrebentação. Sentiu-se parte integrante daquele todo; e como se descobrisse uma nova paixão, entregou-se. Virou mar.