Nunca soube ao certo o que era aquilo. Cubismo cubano, surrealismo israelense, nunca fez diferença. O fato é que aquela figura o intrigou por muito tempo. A manhã era típica de outono, com cheiro de chá por onde quer que fosse. Acordou cedo, com a campainha tocando (nunca teve certeza se ela realmente tocou). Levantou praguejando tudo e todos, inclusive a vodka barata da noite anterior que lhe dava a sensação de possuir uma cabeça pesada demais para a estrutura de seu corpo.
Ao abrir a porta, uma surpresa: o nada. Apenas um pequeno cubo de madeira repousando sobre o seu velho tapete - welcome. Abaixou-se e trouxe a peça até a altura de seus olhos e ficou intrigado com a mensagem que vinha talhada em todas as faces do objeto: "Atenta-te ao novo". Era tudo o que o supersticioso-de-meia-idade precisava pra ter certeza da morte próxima. Afinal de contas, uma mensagem como esta só poderia se referir aos seus últimos dias.
Durante meses viveu cautelosamente, a cada passo, atento a todos os detalhes do cotidiano. Inesperadamente se deliciou com conversas intermináveis nas filas. Fez amizades inimagináveis, como a do senhor que cuidava de seu jardim. Sua vida tomou outra forma. "Uma pena", pensava ele, "conhecer tudo isso já no fim". Com o tempo, cansou. A morte que viesse o encontrar aqui. Voltou ao seu velho ritmo de vida, ranzinza e solitário.
E hoje, vinte anos depois, o já ansião, afetado pela falta de memória, não se importa com o aparador da porta de seu quarto, que trás a inútil mensagem: "Atenta-te ao novo".