A vida nunca foi presente
A vida nunca havia lhe dado um nível mínimo de prazer. Isso era o que ela vivia espalhando, aos quatro ventos. O passado a irritava com qualquer uma de suas lembranças. Talvez a melhor fosse a do seu primeiro beijo. Seria perfeito, não fosse a herpes que a acompanha desde então... Mas agora, vivendo sem perspectiva alguma de melhora, descobriu um prazer. Já não diz respeito à dor. Passa horas e horas se imaginando em uma realidade melhor, no futuro. Rodeada de amigos, é senhora das consequências. Troca de amores sem mágoas. Tem todas as peças para montar uma realidade perfeita ao seu alcance. Se alguma montagem não der certo, basta voltar atrás e tentar outra combinação, até que sua vida volte a ser perfeita. Sua vida melhorou significativamente; mas a cada volta à realidade era uma desilusão. Além de perceber que já não possuía os elementos em suas mãos, já não lembrava das combinações que a tinham colocado além da solidão. Naquela madrugada de terça-feira voltou de sua velhice, rodeada de netos e uma mesa farta. O que encontrou foram cigarros pela metade e uma seringa ainda em sua veia. Aquela solidão a preencheu por completo, tornando-se sua nova heroína. Sentiu-se tão bem assim, andou até a sacada e, entorpecida, viveu o presente. Um sentimento assim, era desconhecido. E, assustada, não exitou; foram dois segundos gritando, até que foi interrompida pelo impacto na calçada. Logo as sirenes cantaram para si e em poucos minutos estava rodeada de pessoas, como em suas projeções.


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