quarta-feira, 27 de maio de 2009

Amor etílico

Nem frio, nem fome. A única coisa que lhe incomodava naquela madrugada era dúvida quanto seus sentimentos. Aquele beijo, de canto, embaçou os limites entre a amizade e a paixão. Teve medo e curiosidade. Mas o que prevaleceu foi o embaraço e um ‘tchau’; tão sem jeito que beirou a indiferença.
Mas agora, menos embriagado, sentia-se como um amante à beira de uma conquista. Não pensou duas vezes. Voltou-se para trás tão rápido que foi tomado por um leve enjoo, logo superado. Caminhou os dois quarteirões com uma pressa incomum àquela hora.
Ao chegar à frente do edifício, sentiu o perfume da jovem ainda ali, pairando sem destino, espalhando o desejo a todos que por ali passassem. Sem exitar, entrou no prédio. Cumprimentou o porteiro e, dentro do elevador, deliciou-se um pouco mais com o cheiro de sua musa. Podia sentir o gosto de seu pescoço.
Ao chegar no 18º andar, deparou-se com a porta entreaberta. Lentamente entrou no apartamento. A luz do banheiro estava acesa e o chuveiro estava ligado. E então, como se estivesse afim de realizar uma fantasia, despiu-se e entrou lentamente.
Pânico, terror. Nunca soube a diferença entre um e outro, mas o que sentiu neste momento foi algo existente entre os dois sentimentos. Ali estava ela, deitada no chão. Apenas seus pés molhavam embaixo do chuveiro. Seu rosto pálido com lábios roxos não dava esperanças de vida.
Ao tocar o pulso da jovem entorpecida, a fim de ter certeza do óbito, o amante despertou a bela-embriagada, que o olhou e vomitou. Um alívio. Seus corpos puderam ser sentidos por todos os quinze minutos antes de dormirem exaustos. No dia seguinte: a cumplicidade. Dor de cabeça e enjoo para ambos.

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